Tuesday, 20 November 07
« – Não trabalhas dois turnos porque o branquinho tem medo do teu cu negro, velho. Tem medo de que os ataques, que te ponhas violento. Vês, ainda não nos temem, José. Ainda não, velho, mas um dia, esse dia chegará, velho. Receberemos o respeito que merecemos. Vamos recuperar a Califórnia, recuperaremos a terra que era nossa, velho.
- Não quero que tragas a tua ira para a minha cozinha, jovem.
- Quero que tires a tua mão do meu ombro, negro.
- Muito bem, continua assim. Sabes, as primeiras vezes que tentei fazer esta sobremesa, não me saiu bem. Demasiado açúcar uma vez, na seguinte já faltava, não podia encontrar o equilíbrio. Dei-me conta daquilo que estava a forçar. Sabes, tratava de fazer com que tivesse o mesmo sabor que o da minha mãe, ou da mãe dela. O meu não tinha poesia, não tinha luz. E então dei-me conta de que me empenhava em forçá-lo a ter o mesmo sabor que o da minha mãe, que o da mãe dela. Vês, tinha que ser a criação do Edward. Tinha que sair de mim. Bom, tu, Miguel, não tens… nada para oferecer. Não tens poesia, não tens luz. Não tens ninguém que te veja e diga: “Maldição! Olhem o Miguel. Eu quero algo do que tem.” Tu só tens ira. (…)Sabes, eu costumava ser igual a ti. Tinha ira. E então, depois de terem morto o Dr. King…bom, tinha ira dentro de mim que tu nem imaginas. Os brancos não tentam oprimir-te, Miguel. Os brancos não gostam é que os esqueçam. Eles hão-de cair em si. Só tens de fazer parecer que a ideia foi deles, como se tivessem sido eles a lembrar-se das coisas. Eles necessitam sentir que são eles os grandes emancipadores. Como se fosse de esperar deles esse papel. Deixa-os ser os “emancipadores”. Se for preciso, deixa-os ser. »
« Não é um bom dia para a política. Guardei esta oportunidade, o meu único evento do dia para falar-Ihes brevemente sobre a ameaça irracional da violência nos Estados Unidos, que outra vez mancha a nossa terra e todas as nossas vidas. Não é matéria de preocupação de nenhuma raça em particular. As vítimas da violência são negras e brancas, ricas e pobres, jovens e anciãos, famosas e desconhecidas. São, acima de tudo, seres humanos que outros seres humanos amavam e de quem necessitavam. Ninguém, não importa onde viva o que faça pode estar certo de que quem for o próximo a sofrer será um derramamento de sangue absurdo. E no entanto, continua e continua a acontecer no nosso país. Porquê? O que conseguiu a violência alguma vez? O que criou? Cada vez que uma vida americana é tirada sem necessidade por outro americano seja realizada em nome da lei ou desafiando a lei, por um homem ou por um grupo, a sangue frio ou num momento de desespero num ataque de violência ou como resposta à violência, cada vez que extraviamos o quadro das nossas vidas que outro homem com dor e sofrimento pintou para si próprio e para os seus filhos cada vez que o fazemos, então toda a nação se degrada. No entanto, parece que toleramos o crescente nível de violência que ignora conjuntamente a humanidade que temos em comum e a nossa promessa de civilização. Demasiadas vezes, honrámos a ostentação e a presunção e os que exercem a força. Demasiadas vezes apoiámos aqueles dispostos a construir as suas próprias vidas sobre os sonhos desfeitos de outros seres humanos. Mas isto é muito mais claro: A violência gera violência, a repressão gera represálias, e só a purificação de toda a nossa sociedade pode remover esta enfermidade das nossas almas. Porque quando ensinas um homem a odiar e a temer o seu próximo, quando lhe ensinas que é um homem inferior pela sua cor ou pelas suas crenças ou pelos seus ideais políticos quando ensinas que os que diferem de ti ameaçam a tua liberdade o teu trabalho a tua casa ou a tua família, então tu também aprendes a enfrentar os outros…não como concidadãos, mas sim como inimigos. A não encontrar cooperação, mas sim conquista. A ser subjugado e dominado. Aprendemos, por último, a ver os nossos irmãos como estranhos. Homens estranhos com quem partilhamos uma cidade, mas não uma comunidade. Homens ligados a nós por ruas e casas comuns mas sem esforço comum é impossível acreditar… Aprendemos a partilhar só um medo comum, só o desejo comum de nos afastar uns dos outros. Só o impulso comum de responder à discórdia pela força. As nossas vidas neste planeta são demasiado curtas. A tarefa a realizar é demasiado grande para permitir que este espírito continue a prosperar nesta nossa terra. É claro que não podemos eliminá-lo com um programa qualquer nem com uma resolução…mas talvez possamos recordar, nem que seja por um tempo, que os que vivem connosco são nossos irmãos, que eles partilham connosco o mesmo breve momento de vida, que eles procuram, como nós, nada mais que a oportunidade de viver as suas vidas com propósito e felicidade, ganhando a satisfação e a realização possível. Sem dúvida, este vínculo de destino comum, seguramente este vínculo de metas comuns pode começar a ensinar-nos algo. Seguramente podemos aprender, pelo menos, a olhar à nossa volta e vermos, ver os nossos homens, e certamente podemos começar a trabalhar um pouco mais, para sarar as feridas e converter-nos, de todo coração, em irmãos e compatriotas outra vez.
Emilio Estevez (2006); Bobby
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