Thursday, 7 February 08
« Decidi escrever um livro porque eu era cor de geleia. Essa foi a razão de fundo. Antes que você pergunte, eu esclareço: quando tinha dezassete anos, foi assim que um professor de literatura me definiu. Cor de geleia. Ele era um sujeito armado em sensitivo, que gostava de catalogar as pessoas por cores. Essa brincadeira fazia-o popular entre os alunos – em especial os rapazinhos, que ele apreciava com uma distância de presidiário, coitado. Fixava o olhar no rosto de um aluno e, depois de alguns segundos, como se tivesse vislumbrado a sua alma, dizia se ele era azul, vermelho, amarelo, verde. Até onde sei, fui o único a ser definido cor de geleia. Ao fixar o olhar em mim, ele demorou-se um pouco mais do que era costume, titubeou e, por fim, deu o seu veredicto. Fiquei intrigado e perguntei-lhe o que significava, afinal de contas, ser cor de geleia, visto que havia geleia de várias cores. Ele não soube responder. Está-se a rir? Pode rir, passado tantos anos, é apenas engraçado. Naquele momento, porém, não achei a menor graça. Para falar a verdade, nem mesmo hoje considero divertido o diagnóstico do meu professor. Quando se tem dezassete anos, principalmente, tudo o que se quer é ter contornos bem claros, um matiz bem definido. E cor de geleia não é cor nenhuma, é o nada. Fica entre o vinho e o marrom, acho eu… Bem, não se pode dizer que o professor tenha errado. Eu era mesmo sem cor, e permaneci assim até matar o meu pai, quando por fim ganhei uma cor. [...] Como ia dizendo, decidi escrever um livro porque essa indefinivel cor de geleia impregnou a minha existênciaaté à idade adulta. Ela estendia-se a todos os quadrantes da minha vida. A minha existência cor de geleia era de uma irrealidade quase que absoluta, e eu precisava com urgência de tornar-me real – de uma realidade, quero dizer, sem conexão com a do permanente embate com o meu pai. »
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