Friday, 11 April 08

« Lembro-me de que ontem julguei ser a pessoa mais feliz da toda a Terra, de toda a galáxia, de toda a Criação. Mas foi só ontem ou há milhões de anos-luz? Pensei que a relva nunca me cheirou tanto a relva, que o céu nunca me pareceu tão alto. Porém, desmoronou-se tudo. Quem me dera poder fundir-me no vácuo do Universo e deixar de existir. Porque não posso? Porquê? Porquê? »

« Até com elas não chego a ser eu mesma, realmente. Em parte sou outra pessoa, uma pessoa a tentar integrar-se e a dizer aquilo que deve dizer, a fazer aquilo que deve fazer, a estar onde deve estar quando deve estar e a vestir-se como as outras se vestem. Às vezes penso que estamos todos a tentar ser sombras das outras, fazendo os possíveis por comprar os mesmos discos, as mesmas coisas, mesmo quando não gostamos delas. Os miúdos são como robots saídos de uma linha de montagem. Pois eu recuso-me a ser um robot! »

« De facto, a principio, quando começaram a dizer-me que estavam deveras preocupados comigo, tive vontade de lhes contar tudo. Mas tudo mesmo! Mais do que tudo no mundo, queria saber que eles compreendiam, mas como é natural só estavam interessados em falar, falar e falar, porque na realidade são incapazes de compreender seja o que for. Se os pais soubessem ouvir! … Se soubessem deixar-nos falar em vez de estarem eternamente, constantemente, a gritar connosco, a pregar-nos sermões, a aborrecer-nos, a corrigir-nos e a papaguear, papaguear, papaguear! Mas é escusado! Não nos ouvem, pura e simplesmente, porque não podem ou não querem, e nós, os filhos, continuamos a encolher-nos na sombra, no mesmo canto frustrante, perdido e deserto, sem ninguém com quem contactar, física ou moralmente. »

« Ainda sinto os vermes a percorrerem-me o corpo, mas começo a habituar-me à presença deles, ou estarei morta, afinal, e o que fazem é experimentar a minha alma? (…) As lagartas começaram por me comer os órgãos femininos. Já quase devoraram a minha vagina e os meus seios e agora atacam-me a boca e a garganta. Quem me dera que os médicos e as enfermeiras deixassem a minha alma morrer, mas continuam a tentar juntar o corpo ao espírito. »

(1972) Perguntem à alice, Moraes editores, pp. 9; 18; 52/3; 114; 144;

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