« Tenho quase a certeza que se me conhecesse hoje, à mesa dum café qualquer, e trocasse uma ou duas palavras mais sérias comigo, não ia gostar de mim. Provavelmente ia pensar qualquer coisa como “este gajo é parvo” e depois arranjava uma desculpa para me ir embora. Deixava-me sozinho com os meu pensamentos para os quais já não há paciência. »

http://naocompreendoasmulheres.blogspot.com/2008/05/pensamentos-catatnicos-132_19.html

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« Meus dois pais me tratam muito bem
(O que é que você tem que não fala com ninguém?)
Meus dois pais me dão muito carinho
(Então porque você se sente sempre tão sozinho?)
Meus dois pais me compreendem totalmente
(Como é que cê se sente, desabafa aqui com a gente!)
Meus dois pais me dão apoio moral
(Não dá pra ser legal, só pode ficar mal!)

MAMA MAMA MAMA MAMA
(PAPA PAPA PAPA PAPA)

Minha mãe até me deu essa guitarra
Ela acha bom que o filho caia na farra
E o meu carro foi meu pai que me deu
Filho homem tem que ter um carro seu
Fazem questão que eu só ande produzido
Se orgulham de ver o filhinho tão bonito
Me dão dinheiro prá eu gastar com a mulherada
Eu realmente não preciso mais de nada

Meus pais não querem
Que eu fique legal
Meus pais não querem
Que eu seja um cara normal

Não vai dar, assim não vai dar
Como é que eu vou crescer sem ter com quem me revoltar
Não vai dar, assim não vai dar
Pra eu amadurecer sem ter com quem me rebelar »

Ultraje a Rigor – Rebelde Sem Causa

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[ministério do interior] « Em todos os instantes da vossa vida é-vos pedido que constateis se estais a pensar, a amar, a mexer, sem qualquer protecção directa ou solar, assentando no emprego temporário de camuflagem, couraças, alta velocidade, marcha em zigue-zague, como quando a urna saíu, com a onda apressada das mais altas individualidades, tomando o seu lugar depois do corpo e empatando a saída do cortejo. »

[segredaria de estado] « Quando se olha para uma pessoa, assim como para uma estrela, não se imagina o que lhe aconteceu. Talvez tivesse alguma vez sido conquistado ou, sabe-se lá, morado nos Olivais ou na Lapa, em qualquer lugar que não tivesse conjuntos absolutos ou tivesse apenas perecíveis jogos de casa de banho, mesmo daquelas que duram toda uma vida. »

[obras] « Por motivo de obras no cérebro, vou fechar durante uns tempos. Preciso duma nova concepção do mundo. Não se trata apenas da fachada. São as canalizações, as paredes do quarto, os tectos. Quem devia fazer as obras era o senhorio, mas ele quer lá saber do meu cérebro, de que ele seja caro, de que os pensamentos se tenham de ouvir uns aos outros devido à exiguidade do espaço e de que a concepção do mundo não funcione porque tem uma bomba avariada. Ainda por cima, cá na terra não há ninguém que a arranje. Tem de vir um homem cá de fora. Um homem cá da terra, mas que vive fora, e que é técnico de avarias de bombas de concepção do mundo. Ele não sabe ainda se é preciso mudar só a bomba ou se é preciso substituir toda a concepção do mundo, de modo a que fique como nova ou, no pior dos casos, uma concepção do mundo que fique como nova depois de arranjada. »

[o ministério da defesa] « Mas para que preciso eu de um presidente se quando me saír um militar os invado a todos? »

[descobertas] «Mais dia menos dia, a América seria descoberta e estou em crer que eu também. Apesar de mais pequeno do que a América e de não ter telemóvel, nem por isso sou menos contactável. Se alguém me quiser descobrir que me ligue para casa até às duas. Eu depois lhe direi se quero ser descoberto ou não. »

[passagem das mãos] « O homem olhou para as suas mãos e disse:
– Estas mãos têm vinte anos.
Cinco anos mais tarde, voltando a olhar para as mãos, comentou:
– Estas mãos têm vinte e cinco anos.
Passaram-se muitos anos, talvez trinta e quatro. Mais uma vez, o homem passou para as mesmas mãos, fitou-as com os dois olhos, ora com o direito, ora com o esquerdo, ora com ambos, olhou para trás no tempo, e disse:
– Esta é a terceira vez que olho para as minhas mãos. »

[tolok] « Pegou num objecto que tinha ali à mão e apontou com o dedo. Tolok: disse. Pegou num outro objecto igual, apontou e disse tolok. Às vezes ia para pronunciar tolok, mas detinha-se antes de o fazer. Depois pronunciava convictamente tolok ou então ficava silencioso e confuso, sem saber se aquilo para que apontava deivia ser tolok ou não. Pegou num outra coisa completamente diferente e disse molak. Segurou mais alguns objectos, à medida que ia proferindo ora tolok, ora tolak. Aconteceu-lhe porém ter pegado em algo que lhe causou particular indecisão. Era tolok? Ou seria molak? E quanto mais pensava maior era a indefinição. E porque não talak ou mesmo malok ou outra coisa qualquer? Pegou num objecto tolok e num objecto molak e comparou-os. Após tê-los observado bem, fechou os olhos e continuou a observá-los com os olhos fechados. Ouviu cada um dos objectos e cheirou-os. Por fim, pegou no objecto que o tinha confundido e, apontando para ele o indicador, disse:
– És tolok, mas quando precisar serás molak. »

[rua da consciência, número 7] « Algo me diz que a consciência começa no nº 7 da minha rua e acaba em mim »

[memória do futuro] « Tenho receio que não possa vir a ter estado aí a tempo. Farei tudo para que ontem nos venhamos a encontrar, mas não sei se cheguei à hora que virá a ser marcada. Se houver qualquer atraso, por causa das forças do bloqueio ou por outras tarefas a bordo, só nos podemos voltar a ter visto uma semana antes. Daqui avisto um vasto oceano de tempo, de tempo que sobra, de tempo que foi, e do tempo que sobrea daquele que foi, mares de PPES, mais ao longe um comboio de tesamol a subir na linha do horizonte, arrastando-a como se fosse não sei o quê; e, mais longe do que tudo o que é longe, para além da alfândega do invisível, tu pareces-me o núcleo de um átomo com uma cintura de electrões à tua volta. Estou à espera que me tenham levado deste maldito cais, na companhia de seguros ventos estrelares, como se tu tivesses sido uma árvore com os ramos voltados para dentro do meu amor em ti. Os mapas de voo que desenham os teus cabelos levo-os na sombra guardados da última constelação. »

[donuts] « Quando a guerra começou, eu ainda estava a dormir. Ainda não sabia que a guerra já tinha começado, quando acordei, comi um donuts, e liguei o televisor. Foi aí que soube, muito naturalmente, nas notícias da manhã, que o mundo tinha acabado há duas horas e meia e que não havia sobreviventes. Não fora ter ligado a televisão e ainda hoje não sabia nada! »

[big-little-bang] « A mim acontecem-me vários big-bangs e até big-little-bangs todos os dias, expandindo-me aqui e ali e contraindo-me quando está frio, sem ter de pedir licença às galáxias »

[como deixar de ser nevoeiro em três dias] « Estamos no mar alto. Não sabemos bem onde, mas também não precisamos de saber porque ninguém nos vem perguntar. Aqui nunca ninguém pergunta nada a ninguém. Quando alguém quer saber alguma coisa, um monumento, um farol, um sentido, vai às informações. Excepto aos domingos, quando a empregada não está porque vai a terra visitar os pais. »

[momento] « Era uma vez em que parei num momento. Olhei lá para dentro e não avistei o fim. Até que comecei a cair, a cair muito, para dentro do momento, até deixar de sentir que caía. E quanto mais caía, mais deixava de sentir que caía. Aí, comecei a perder as palavras, a camisa, as calças, os sapatos, até ficar sem roupa, até deixar cair o corpo e o copo e sentir um vento interior, um sopro eléctrico e imóvel quando ela num instante me cruzou o coropo com a língua. »

[montanha] « Uma montanha demora muito mais tempo a responder do que qualquer um de nós, mas não é por causa disso que responde pior. Só que é mais pesada, mais lenta, tem que movimentar uma carga maior para argumentar, e quando ela responde, ou nós já cá não estamos, ou aqueles que fizeram a pergunta já se foram embora. »

[objecto] « Sou um objecto. Aviso já, para depois não me confundirem com um sujeito qualquer ou não pensarem que podem dispor de mim antes do verbo. Como nunca ninguém me disse como é que eu era, não sei como é que eu sou, nem tenho palavras para me descrever, a mim e aos outros que estão aqui comigo, do lado do complemento directo. Fazemos de tudo um pouco: dobramos esquinas, apanhamos correntes de ar, ajudamos todos aqueles que nos procuram em busca de acessórios, sobresselentes e tranquilidade. De vez em quando, vem alguém buscar-nos para peças, atirar-nos para longe e ir-se embora. »

[cheque a bernardo soares] « Se a minha janela eu vejo melhor a Lua do que a Nova Iorque, que eu não vejo, então a minha janela fica mais próxima da Lua do que de Nova Iorque »

[cometas ou foguetões] Dia 2234859
«
– Aquilo ali são cometas.
– Não são nada; são foguetões.
– São cometas. Eu sei. O meu pai, que é astronauta, ensinou-me a distinguir cometas de foguetões.
– O melhor é atingirmos um, para ver. Quem acertar paga uma órbita.
O pequeno Lítio colocou na fisga dourada um satélite que não seria maior do que um berlinde e disparou.
– Ena, ena, não acertaste – rejubilou o pequeno Deutério, como se tivesse ganho na roleta russa. Agora seria ele a tentar. Até que vinha mesmo a calhar uma órbita de borla. As suas economias já tinham ido, e só voltaria a ter mais escudos quando o pai regressasse do espaço. Carregou então a sua pequena fisga dourada como um satélite vermelho e disparou. Nada.
– Tz! Preciso de lhe dar mais velocidade para o subtraír à gravitação – disse Deutério, insastifeito. – Estás-te a rir, mas também não lhe acertas.
– Vamos a ver! – ripostou Lítio, aceitando o desafio. E, com ar decidido: – Vou pôr um satélite mais pequeno e encurtar a borracha.
Respirou fundo, esticando quanto podia a borracha proveniente da junta flexível de um foguete. Fez pontaria. Quando abriu a mão direita, zlaaap! O pequeno asteróide partiu em direcção a uma corpúscula luminosidade. A luz cresceu no céu, primeiro azul, depois vermelha, quase branca, e descey, descrevendo uma espiral de fumo flamejante. Foi entao invadido pelo receio de que o pai estivesse a bordo e de que não voltasse para lhe ensinar a distinguir um cometa de um foguetão? »

Pocinho, António (1999); Os pés frios dentro da cabeça, Fenda; pp. 16, 19, 21, 24, 27, 36, 39, 43, 47, 54-55, 64-66, 79, 88-89,

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«Vou já dizendo para arrepiar caminho, que não tenho medo nenhum de morrer. Vamos cá ver: ter até tenho, porque morrer significa um apagar de luz que não estou preparado – nem nunca estarei, aqui vos digo –, mas o que eu tenho mesmo, é medo de fazer sofrer enquanto morro. Quando morremos há muitas pessoas que morrem connosco e é a pensar nelas que não quero. Não quero que pessoas que tanto gosto morram comigo por saberem que morri. Daí que quando me dizem “olha que a continuares assim, vais morrer sozinho!”, eu invariavelmente suspiro como se fosse um sonho bom. E porquê? Porque não quero que na altura de morrer, ninguém esteja comigo.

Pelo contrário, faço questão que quando o pressentir tenha fôlego suficiente para dizer a quem está próximo “Olha, parece que estão ali a chamar-vos lá fora, se não se importam deixem-me agora um pouco sozinho que eu quero aqui fazer uma coisa que não podem ver!” e posto isto, aproveitando a ausência que sei ir ser curta, morro ali num instantinho. Assim, de repente. Sem sofrer nada e sem fazer sofrer. Como se saíssemos de manhã para comprar cigarros e não voltássemos. Ficávamos a meio do caminho entregues a um momento que deve ser nosso, apenas e só, nosso. Mas não é. E cada vez mais percebo que todos querem estar presentes na hora da nossa morte quando muitos deles o deveriam ter feito em vida. Dispenso pois os aplausos que saberei não ouvir – aplaudam-me agora – dispenso pois flores – dêem-me agora – poupem-me os elogios “Que era bom rapazinho! Que deixará saudades! – falem-me agora enquanto vos ouço pois quando estiver reduzido a cinzas não ouvirei patavina do que me dizem. Mas não. Pelo contrário, quando estamos a morrer – e eu espero estar muito longe disso – é usual dizerem “Ele está a morrer, não posso o deixar sozinho” -, quando afinal – para mim por exemplo – é tudo o que quero.

Por mais que nos custe, nos funerais as pessoas falam umas para as outras e não para quem morre, tal qual muitas mulheres se vestem umas para as outras e não para os homens. A morrer – e esse dia virá por mais que me custe – gostaria apenas de pedir um último desejo. O de estar vivo, apenas e só, para assistir à minha morte. Que mórbido, dirão! Pois que o seja, ora essa, mas quando vamos morrer somos pequeninos de novo e tal qual o aniversário de uma criança muito pequena tudo nos deverá ser permitido. E assim – pensando bem – é legitimo o que peço. Viver apenas o tempo suficiente para assistir à minha morte. O tempo suficiente para perceber quem me chora com igual intensidade à que eu chorei quando o Veloso falhou o penalty frente ao PSV Eindhoven. Só peço isto – respeitem-me pois- perceber quem ali foi e que eu já não via tanto tempo só para comentar em tom baixo “ainda ontem liguei àquele sacana para irmos para os copos para o Bairro e disse-me que estava cheio de trabalho e agora é isto, olha para ele ali como se não tivesse nada para fazer!” Quando morre alguém, de repente, as pessoas ficam sem nada para fazer. Daí que não vá a funerais ou que os evite a todo o custo porque quero chorar e rir com quem é vivo, fazer-lhe uma última homenagem todos os dias como se fosse o primeiro e não o último. Bater-lhe palmas em vida, dizer “És o maior! Gosto de conversar contigo pá!” na certeza de que a pessoa ouvirá o que lhe digo. De lhe telefonar a dizer “era só para saber se estavas bem, pois não tenho novidade alguma” de lhe escrever ou enviar uma mensagem revelando que a festa está boa “Mas que não é a mesma sem ti”. Depois de morrer – e esse dia virá pois então – só ouvirei palavras e sentirei os gestos que me tenham sido dirigidos ainda em vida. A tudo o resto – só por perrice – faço questão de fazer ouvidos moucos.»

Alvim, Fernando (2008), Ouvidos Moucos

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« Lembro-me de que ontem julguei ser a pessoa mais feliz da toda a Terra, de toda a galáxia, de toda a Criação. Mas foi só ontem ou há milhões de anos-luz? Pensei que a relva nunca me cheirou tanto a relva, que o céu nunca me pareceu tão alto. Porém, desmoronou-se tudo. Quem me dera poder fundir-me no vácuo do Universo e deixar de existir. Porque não posso? Porquê? Porquê? »

« Até com elas não chego a ser eu mesma, realmente. Em parte sou outra pessoa, uma pessoa a tentar integrar-se e a dizer aquilo que deve dizer, a fazer aquilo que deve fazer, a estar onde deve estar quando deve estar e a vestir-se como as outras se vestem. Às vezes penso que estamos todos a tentar ser sombras das outras, fazendo os possíveis por comprar os mesmos discos, as mesmas coisas, mesmo quando não gostamos delas. Os miúdos são como robots saídos de uma linha de montagem. Pois eu recuso-me a ser um robot! »

« De facto, a principio, quando começaram a dizer-me que estavam deveras preocupados comigo, tive vontade de lhes contar tudo. Mas tudo mesmo! Mais do que tudo no mundo, queria saber que eles compreendiam, mas como é natural só estavam interessados em falar, falar e falar, porque na realidade são incapazes de compreender seja o que for. Se os pais soubessem ouvir! … Se soubessem deixar-nos falar em vez de estarem eternamente, constantemente, a gritar connosco, a pregar-nos sermões, a aborrecer-nos, a corrigir-nos e a papaguear, papaguear, papaguear! Mas é escusado! Não nos ouvem, pura e simplesmente, porque não podem ou não querem, e nós, os filhos, continuamos a encolher-nos na sombra, no mesmo canto frustrante, perdido e deserto, sem ninguém com quem contactar, física ou moralmente. »

« Ainda sinto os vermes a percorrerem-me o corpo, mas começo a habituar-me à presença deles, ou estarei morta, afinal, e o que fazem é experimentar a minha alma? (…) As lagartas começaram por me comer os órgãos femininos. Já quase devoraram a minha vagina e os meus seios e agora atacam-me a boca e a garganta. Quem me dera que os médicos e as enfermeiras deixassem a minha alma morrer, mas continuam a tentar juntar o corpo ao espírito. »

(1972) Perguntem à alice, Moraes editores, pp. 9; 18; 52/3; 114; 144;

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« A felicidade não está no que acontece mas no que acontece em nós desse acontecer. A felicidade tem que ver com o que nos falta ou não na vida que nos calhou. Devo dizer-te que não me falta nada, quase nada. »

Vergílio Ferreira, Em Nome da Terra

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« Decidi escrever um livro porque eu era cor de geleia. Essa foi a razão de fundo. Antes que você pergunte, eu esclareço: quando tinha dezassete anos, foi assim que um professor de literatura me definiu. Cor de geleia. Ele era um sujeito armado em sensitivo, que gostava de catalogar as pessoas por cores. Essa brincadeira fazia-o popular entre os alunos – em especial os rapazinhos, que ele apreciava com uma distância de presidiário, coitado. Fixava o olhar no rosto de um aluno e, depois de alguns segundos, como se tivesse vislumbrado a sua alma, dizia se ele era azul, vermelho, amarelo, verde. Até onde sei, fui o único a ser definido cor de geleia. Ao fixar o olhar em mim, ele demorou-se um pouco mais do que era costume, titubeou e, por fim, deu o seu veredicto. Fiquei intrigado e perguntei-lhe o que significava, afinal de contas, ser cor de geleia, visto que havia geleia de várias cores. Ele não soube responder. Está-se a rir? Pode rir, passado tantos anos, é apenas engraçado. Naquele momento, porém, não achei a menor graça. Para falar a verdade, nem mesmo hoje considero divertido o diagnóstico do meu professor. Quando se tem dezassete anos, principalmente, tudo o que se quer é ter contornos bem claros, um matiz bem definido. E cor de geleia não é cor nenhuma, é o nada. Fica entre o vinho e o marrom, acho eu… Bem, não se pode dizer que o professor tenha errado. Eu era mesmo sem cor, e permaneci assim até matar o meu pai, quando por fim ganhei uma cor. […] Como ia dizendo, decidi escrever um livro porque essa indefinivel cor de geleia impregnou a minha existênciaaté à idade adulta. Ela estendia-se a todos os quadrantes da minha vida. A minha existência cor de geleia era de uma irrealidade quase que absoluta, e eu precisava com urgência de tornar-me real – de uma realidade, quero dizer, sem conexão com a do permanente embate com o meu pai. »

Sabino, Mario (2005), O Dia em que Matei o Meu Pai, Saída de Emergência

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